Uma grande hype foi criada em meio a esse filme e não é para menos, ser vencedor do prêmio do júri de um dos maiores festivais do cinema não é para qualquer um. Seria o Brasil em seu momento de glória?

Na minha opinião sim. Desde os créditos iniciais até seu momento final, bacurau deu um show no quesito arte cinematográfica.

O filme caminha sutilmente nos gêneros western, ficção e e até um humor um tanto “sádico” e isso para mim acabou se tornando uma das premissas do filme.

A maneira como é retratada o cotidiano de uma cidade “abandonada“ pelo resto do país é encantadora. Ver seus jeitos, costumes, tradições, fala e a hospitalidade, acaba por manifestar a cultura rica, porém, muitas vezes desvalorizada de nosso país. Bacurau dá um show no quesito cenário e figurino, mostrando fielmente a simplicidade de uma população.Mas não se deixe enganar, o povo de Bacurau é simples, mas não é burro.

Vemos isso na fala da criança no cenário que aparenta ser, a princípio, uma mercearia, quando os dois motoqueiros chegam e perguntam “Quem nasce em Bacurau é o quê ?”, o garoto responde, “ É gente “.

Assim podemos perceber o orgulho dos habitantes em suas raizes, além do fato de todos convidarem constantemente os turistas a visitarem o museu local, que para os olhos de alguns pode ser pequeno, mas extremamente rico culturalmente e traz muito orgulho a população.

Vemos isso mais uma vez, quando começam a aparecer tensões políticas quando o personagem Tony, que se diz prefeito, chega na cidade onde faz uma auto propaganda de “Estou aqui para ajudar”, “Estou aqui para vocês”. Bem entre aspas mesmo, porque não precisa de muito senso para perceber o papo furado.

Concluindo a indagação quando, o que ele tem a oferecer são mantimentos vencidos e remédios tarja preta, o que sabemos bem, que só devem ser usados mediante a prescrição médica. Assim então fica evidente o pensamento que assola o país todos os dias - as minorias merecem lixo (e nem vou entrar em termos de alienação). Vamos mascarar a merda fazendo um “agrado”, mas diferente de muitos, como disse antes, a população de Bacurau é simples mas não se deixa levar, onde vemos o prefeito em seu comício, falando para as paredes e logo depois sendo vaiado.

A trama decorre e logo vemos a problemática- visitantes estrangeiros, um tanto quanto indesejados, possuem interesses sórdidos na pequena cidadezinha.

Em uma das reuniões, cúmplices brasileiros alegam que são de uma região muito rica do Brasil, sendo eles, assim, parecidos com os estrangeiros . Os referidos anteriormente acabam por rir na cara dos brasileiros e dizem “Vocês não são brancos, olha seu nariz, vocês não são como a gente “ - mostrando claramente a síndrome de grande parte dos brasileiros, achando que por ter alguns traços, podem ser considerados europeus.

Esses não se sentem pertencentes ao seu país, ou pior, não querem ser, desvalorizando o que é nosso, desvalorizando principalmente uma de nossas maiores virtudes, o multiculturalismo.

O que no começo o povo de Bacurau parece ser violado de muitas maneiras, o plot twist ganha destaque reproduzindo a resiliência da população. Transcrevendo a realidade de muitas regiões brasileiras. Resistir!

Bacurau tem compromisso com a realidade, com traços um tanto distópicos, se fazendo um filme extremamente atual, mas não só pela sua data de lançamento.

O grande ápice do cinema brasileiro não foi apenas o produto final, e sim a valorização dos meios até chegar nele. Mais de 800 empregos foram gerados de forma direta e indireta na região, por meio de atuações do povo local, além de aluguel de casas e espaços. E não digo apenas em viés financeiro, mas o orgulho de seu povo em ser reconhecido e representado.

O Brasil foi mostrado ao mundo, sem mais delongas, desigualdade social e apelo para a mudança, uma verdade que nem todos querem ver.